OBITUÁRIO DE ROSE ALTENBURG PRAUN

Rose Altenburg Praun nasceu em São Paulo, capital, Brasil, em 29 de outubro de 1933. Faleceu com a idade de 92 anos em 05 de agosto de 2026; filha de Max Altenburg e Herta Meyer Altenburg. Casou com Walter Praun, falecido, com quem teve dois filhos, Carlos Hugo Praun, falecido e André Luiz Praun casado com Fabiane Jacques Tavares Praun.

Rose Praun foi uma musicista com alta vocação e intenso amor dedicado à Música como intérprete e pedagoga, através dos instrumentos pelos quais desenvolveu estudo desde a infância, seguindo em sua formação até a idade adulta: Piano, Flauta Doce, Cemballo e Krumhorn. Competente na prática destes instrumentos dedicou-se  a amplo repertório e a Música Antiga como docente  e como intérprete  nos grupos  onde participou  e nos grupos que criou.

Rose Praun teve como professores:  Oleh Muzishenko (Piano),  Kantor Wilfried Meyer (Órgão), Prof. Dr. Oscar Zander (Morfologia e Estruturação da Linguagem Musical ) Jorge Hirt Preiss, Helder Parente, Flavio Stein e Renata Pereira (Flauta Doce) e Elza Lackshewitz (Coro), aperfeiçoando sua formação a partir da juventude no Conservatório Curt Hering  e posteriormente,  na Escola de Musica do Teatro Carlos Gomes. Participou ativamente  nos diversos Seminários Catarinenses de Música, Festivais de Música em Curitiba e em diferentes cursos.

Atuou como docente e intérprete na Escola de Música do Teatro Carlos Gomes em Blumenau, Santa Catarina-Brasil desde 1973 até 2013. Neste período criou os grupos de Flauta Doce POPULYPHOLIA e  SOPRATUTTO. Participou do STUDIO DE MÚSICA ANTIGA e CORO DE CAMARA DA ESCOLA DE MUSICA do Teatro Carlos Gomes, atuando  também  como professora nas cidades de  Pomerode , Joinville e Florianópolis.

Em 2012 fez uma importante doação para a Biblioteca da Escola de Música do Teatro Carlos Gomes de Blumenau: o acervo de sua biblioteca de trabalho de mais de  quarenta anos de atividade docente e musicista intérprete, com mais de duzentos títulos de obras e métodos em edições originais do universo da Flauta Doce.

Para além do que diz  o seu currículo, uma bela síntese de quem foi ROSE ALTENBURG PRAUN revela-se no depoimento HOMENAGEM A ROSE ALTENBURG PRAUN  de Luiz Henrique  Beduschi , que foi seu aluno desde a infância até a idade adulta, quando partiu para estudo e carreira na Europa.

Texto por: Luis Henrique Beduschi.

Rose Altenburg Praun foi minha professora. A sua sala está gravada na minha memória como se eu ainda estivesse diante da porta, esperando ansiosamente nossa aula começar. Para mim, era a sala mais bonita da escola de música do Teatro Carlos Gomes. As paredes eram decoradas com um quinteto de flautas, um quarteto de flautas, um quarteto de krummhorns e alguns instrumentos de percussão. Estantes cheias de livros lindos e armários repletos de partituras preciosas. Cada cantinho era decorado como se fosse a casa dela: toalhinhas, pequenos objetos. Era todo um mundo de coisas bonitas, de possibilidades, de novidades a descobrir.

As aulas com a Rose não aconteciam só naquela sala. Eram em várias outras salas do teatro, nos palcos e na sua própria casa. Foi lá que ouvi os primeiros discos de música antiga: Frans Brüggen, Gustav Leonhardt, Nikolaus Harnoncourt, Christianne Jaccottet e tantos outros. Ela era uma professora assertiva, dizia exatamente como as coisas deveriam ser feitas. Mas nunca forçava nada; estava sempre aberta a receber o que vinha do aluno, pronta para aproveitar e expandir a partir dali.

Era professora sem precisar ser mestra. Impunha respeito, mas me acolheu como um par desde a primeira aula, aos meus 8 anos. Quem tem essa imensa qualidade de acolher uma criança como seu par hoje em dia? Não tinha o ego inflado de quem quer formar discípulos. Pelo contrário: estava sempre impulsionando seus alunos a conhecer novos horizontes, outras visões, outras possibilidades.

Foi ela quem me mandou para o meu primeiro masterclass em Jaraguá do Sul. Eu devia ter uns 11 anos. A professora era Elisabeth Seraphim Prosser, da Escola de Belas Artes do Paraná. Fui sozinho de ônibus e cheguei à rodoviária da cidade vizinha como quem desembarca em um novo continente: tudo novo, um medo enorme. Achar um táxi, explicar o caminho, pagar pelo trajeto… Coisas que se faziam naquela época — uma criança de 11 anos viajando sozinha para outra cidade. Mas, depois do medo, veio o prazer, a alegria imensa de aprender coisas novas (lembro exatamente de todos os exercícios que fizemos); o êxtase e o orgulho de ter conseguido superar os desafios.

Rose sempre me encorajou a ir a lugares desconhecidos para buscar conhecimento. Depois de Jaraguá, veio um masterclass em Curitiba, com Bernardo Piza. Em seguida, ela organizou uma bolsa para que eu estudasse com ele em São Paulo. Eu ia de ônibus a cada quinze dias, pegava metrô e ônibus locais até chegar à casa do Bernardo, onde pagava por uma hora de aula e recebia três.

Quando Ângela Sasse e Flávio Stein chegaram para dar aulas de flauta na Escola de Música em Blumenau, em vez de tentar me reter, ela me disse: “Vai estudar com eles, aprender coisas novas. Não tenho mais nada para te ensinar.” Ela tinha. Sempre teve algo a me ensinar! O que ela não tinha era possessividade sobre mim como aluno. Queria me ver livre, aprendendo, diversificando meus caminhos.

Assim, Rose me ensinou a ter curiosidade, a não aceitar dogmas, a não me prender a uma única escola, mas a buscar na diversidade as infinitas possibilidades de encontrar a beleza na música, na flauta. Acho que ninguém me ensinou isso tão bem quanto ela.

Foi ela quem me fez tocar com minha irmã pela primeira vez — o que acabou rendendo dois discos, um sem-fim de repertório descoberto, arranjos de peças improváveis e concertos em vários países. Foi ela quem me fez descobrir a alegria de tocar em consort; me mandou participar das aulas e ensaios maravilhosos com a Carmen von Linsingen.

Foi ela também quem me levou, em uma verdadeira jornada iniciática, a conhecer o ateliê do Pastor Ziel no interior de Blumenau. Lembro da viagem de carro pelas estradas de barro — uma expedição mágica. Ali, entrei de cabeça no fantástico mundo da lutheria de flautas. Vi pela primeira vez, ainda criança, os projetos das flautas da coleção Brüggen desenhados por Fred Morgan. O pastor me apresentou ao seu torno, apontou para o pontalete de uma cerca que delimitava um pasto das vacas e disse: “Aquela peça daria uma ótima flauta de voz!” Devia ter 12 anos. Mal sabia eu que aquilo gravaria em mim, lá no fundo, uma paixão pela fabricação que, décadas mais tarde, me levaria a aprender este ofício com Ernst Meyer.

Rose me ensinou como me comportar no palco, me proporcionou tocar com uma orquestra pela primeira vez. Ficou tão orgulhosa quando voltei da Suíça tendo aprendido a falar alemão que me deu de presente um livro que eu sempre admirara em sua estante: Die Flöte und ihre Musik, de Gustav Scheck.

Era séria e incisiva, mas também cheia de humor, sempre com uma anedota engraçada na ponta da língua. Tinha um jeito maroto de contar histórias e falava de suas aventuras como uma criança aprontando travessuras. Era irreverente.

Ela abriu em mim um mundo do que era possível. Tudo parecia realizável. Nunca impôs limites, apenas apontou fronteiras a serem desbravadas. Foram esses impulsos que me levaram à Suíça, à França, a uma vida inteira de muita música, de muita flauta, muitos concertos. Uma vida de imensas alegrias e descobertas.

Não há como agradecer por esse aprendizado. Poucos professores podem se orgulhar da habilidade de transmitir o sentido do possível, de abrir novos mundos para seus alunos. Ela podia.

Obrigado, minha professora. O teu corpo não está mais entre nós, mas tudo o que me ensinaste — todas as memórias e imagens, o impulso de vida, a ausência de fronteiras —, tudo isso estará para sempre comigo. Obrigado por tudo.

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